Na última crónica ao falar dos autores de BD em Portugal, cometi um erro comum neste país, falei essencialmente de desenhistas esquecendo os argumentistas.Os argumentistas são os parentes pobres da BD, o seu trabalho é na maior parte dos casos inclusive, e neste país onde se dá pouco valor ao argumento, oiço as pessoas queixarem da pouca qualidade dos argumentos dos álbuns nacionais, contudo menospreza-se o trabalho do argumentista. Para tornar a situação um pouco mais ridículas e a maioria das pessoas parece ignorar que geralmente a BD é um trabalho de equipa. Só para dar alguns exemplos: não havia Incal sem Jodorowsky , Blueberry sem Charlier ou Asterix e Lucky Luke sem Gosciny.
Mas este é um detalhe do qual não se fala ou menciona, e quem quer ser argumentista em Portugal ouve várias vezes a frase que “nem toda a gente pode ser pode ser um Alan Moore ou um Neil Gaiman”. O que não é mentira, só que esquecem que os grandes autores completos também também são muito poucos. Ser um bom argumentista/escritor é difícil, ser um bom artista (desenhista/ilustrador) é também difícil, conseguir dominar o aspecto gráfico e a escrita é algo que só está ao alcance de poucos. E existem muitos casos de autores completos que começaram só por ser desenhistas, e só mais tarde após dominarem o aspecto gráfico se dedicaram a uma carreira a solo. Um desses casos é Enki Bilal por exemplo antes de se lançar a solo ilustrou durante vários anos argumentos de Pierre Christin o mesmo argumentista que escreveu Valerian.
Contudo no meio bedéfilo nacional a banda desenhada a parte gráfica é sobrevalorizada e o argumento desprezado. O que importa é o desenho, a escrita é ignorada. Nos últimos anos tem sido publicados em Portugal vários livros de argumentistas consagrados da BD mundial como Neil Gaiman, Alejandro Jodorowsky e Alan Moore. Esses livros passaram completamente ao lado do meio bedéfilo – autores, críticos e leitores - enquanto um exposição de um autor/ilustrador completamente desconhecido, é um evento obrigatório para quem gosta de BD.
A APAD (Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos) organiza cursos/workshops de guionismo e/ou escrita criativa, apesar de não abordarem um guião para BD são uma forma de um argumentista aprender e desenvolver a criação de histórias, personagens e outros aspectos essenciais para se contar uma boa história. Não me lembro de ver esses workshops de guionismo serem promovidos nos poucos meios de divulgação da BD nacional, mas os workshops e cursos de ilustração…
A falta de reconhecimento e importância que se dá ao argumento em Portugal não é o principal problema que um argumentista enfrenta, o principal é que há falta de desenhistas, perdão! Existem desenhistas e aspirantes a desenhistas como já mencionei, só que aqueles que tem capacidade e disponibilidade de trabalho, geralmente prefere desenhar as suas histórias ou querem ser remunerados, por isso estão fora de questão. Depois sobra a larga maioria que prefere falar a trabalhar.
Eu até compreendo que existam artistas que tenham problemas em trabalhar com um argumentista num projecto que não tem editora e se arrisca a só ser publicado em auto-publicação. Contudo existem situações caricatas que me levam a pensar que o problema é um pouco mais complexo e envolve o ego de certos “desenhistas”.
David Soares começou a fazer BD como autor completo, mas optou por se dedicar há escrita e deixar de desenhar. Quando tomou esta decisão já tinha ganho prémios da crítica, do público, uma bolsa de criação literária e já tinha um álbum publicado em França. Não era exactamente um argumentista desconhecido, pelo que a Devir estava interessada em publicar trabalhos dele, procuraram desenhistas e não encontram nenhum, quer dizer, até encontraram só que eles baldaram-se.
E tirando um desenhista que tinha outros projectos, e tem vindo a desenvolver a sua obra e carreira em Portugal e lá fora, os restantes não realizaram nem os projectos do David para a Devir nem qualquer outro projecto.
Este caso é o melhor exemplo que existe para a falta de vontade de trabalhar dos desenhistas, ou se preferirem da incapacidade de colaborar com outro autor, e daqueles casos em que existe um grande falta de vontade de trabalhar.
Temos um argumentista que é conhecido, temos uma editora disposta a publicar, mas não há desenhistas! E a Devir podia não pagar á prancha, mas os direitos de autor não seriam só referentes à edição em Portugal, é que á Devir também edita no Brasil e em Espanha. E para um desenhista que nunca publicou um álbum, até não era um mau negócio.
O David Soares ficou com os argumentos na gaveta, e obviamente ficou frustrado com a situação, como muitos outros argumentistas que possuem argumentos guardados na gaveta. Eu até nem tenho pena do David, se calhar até foi um mal que veio por bem, afinal como ele gosta de escrever anda a dedicar-se à prosa, e para quem não consome literatura já tem dois livros publicados, o último dos quais “Os Ossos do Arco-Irís” tem recebido excelentes críticas, tem colaborado em antologias e está a escrever mais um livro. Agora já não é um “argumentista” é escritor a “sério”. Em termos pessoais é mais gratificante, tem maior reconhecimento do que se estivesse só a escrever BD, e o que escreve não fica guardado na gaveta por falta de desenhistas, só não é publicado se não houver editora, e até agora isso não tem sido problema para ele.
Como o David Soares existem mais argumentista com argumentos na gaveta, um editor confidenciou-me que tinham-lhe entregue 6 guiões, uns de autores desconhecidos outros de autores com experiência e conceituados noutras áreas do audiovisual. Obviamente não está nos planos dele publicar esses álbuns, e eu não o recrimino, especialmente porque é editor que já aprovou um projecto a autores nacionais e nunca viu 6 pranchas desse trabalho, em 3 anos!
Vivemos num país em que nos queixamos da falta de qualidade dos argumentos, diz-se que não “há” argumentistas, e as pessoas esquecem-se de Jorge Magalhães, Marte, João Paulo Cotrim e Nuno Artur Silva, só para mencionar alguns.
Em Portugal para além de serem ignorados e esquecidos (mesmo quando produzem) os argumentistas aparecem e desaparecem mais depressa que os “artistas”, porque quem não é um “autor” e pretende escrever e contar histórias, opta por escrever prosa ou então vai escrever para televisão, cinema ou animação. Áreas onde sempre é possível desenvolver projectos que não estão dependentes do “ego” e disponibilidade de trabalho de um desenhista, e que acabam por ser mais compensadores pelo menos a nível pessoal e de reconhecimento do trabalho desenvolvido.
É que por muito bom que seja o argumentista, não me lembro de ouvir um alguém a lamentar o seu desaparecimento. São mencionados constantemente os desenhistas que deixaram de produzir, não só daqueles que fizeram e publicaram álbuns e foram presença assídua em jornais ou revistas, mas também os “artistas” que numa década só produziram meia dúzia de pranchas, por falta de capacidade de trabalho.
Lamenta-se a falta de qualidade dos argumentos, mas não se lamenta o desaparecimento de argumentistas de qualidade. Promove-se o surgimento de “novos talentos gráficos” mas não se faz nada para surgirem novos argumentistas.
Ainda hoje acho estranho que na altura de se falar da falta de argumentistas de BD portugueses ninguém menciona o Nuno Artur Silva, Foi o argumentista de “As Aventuras de Filipe Seems” – ilustrados por António Jorge Gonçalves- o primeiro álbum da série (intitulado “ANA”), foi um dos mais premiados e vendidos em Portugal. Apesar de ter “abandonado” a BD o Nuno Artur Silva continua a ser um argumentista, só que de televisão, foi um dos fundadores das Produções Fictícias e da APAD (Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos).
Para mim é estranho que não se mencione o seu nome quando se fala do qualidade dos argumentistas de BD nacionais.
Eu sei que em Portugal não há nenhum Alan Moore, mas em Inglaterra só também só há um, mas existem outros com qualidade, e muitos mais com pouca ou nenhuma. Contudo a maior diferença entre ser argumentista em Portugal e Inglaterra (ou França ou EUA) é que existem maneiras do argumentista ir publicando e desenvolvendo o seu talento, para além disso o argumentista não é ignorado e desprezado. Quem pretende ser argumentista de BD num país como França, Inglaterra ou EUA não tem tarefa fácil, mas não está só dependente da disponibilidade e ego de um desenhista.
Só que neste país um argumentista de BD só é publicado se houver alguém disposto a desenhar, o que é difícil. E mesmo os bons argumentista que existem (apesar de não serem um “Alan Moore”) são completamente esquecidos, e repete-se até à exaustão que “não há bons argumentistas em Portugal”. Quando na realidade o maior problema é que o meio bedéfilo nacional privilegia a parte gráfica e ignora a escrita.
Vivemos no país onde “talentos gráficos” parece ser sinónimo de “talentos bedéfilos”, onde se privilegia a parte gráfica e se ignora o argumento, para no fim os leitores e editores se queixarem da falta de qualidade destes.
Julho 8th, 2008 at 6:53 am
Concordo com a maior parte das afirmações, em termos objectivos, apesar de notar uma certa revolta pessoal inerente às palavras (que, de certo modo, compreendo). Eu conheço relativamente bem o trabalho de Alan Moore e, francamente, não entendo a razão de colocarem o homem num altar literário. Concordo que ele, com todo o mérito, é um bom autor e imprime qualidade àquilo que faz. No entanto, há outros autores muito bons (foi referido o Neil Gaiman) que, dentro da mesma área de trabalho, criam com qualidade paralela. Portanto, colocar o homem a servir de bitola para todos aqueles que fazem trabalho similar é, para além de injusto (principalmente para autores menos experientes), uma absurda idiotice. É quase como a febre acéfala criada à volta do Cristiano Ronaldo, quando toda a imprensa nacional e internacional apenas parecia ver o rapaz como sendo o único jogador da selecção digno de espetar umas biqueiradas na bola. E os outros? Estavam ali só para cumprir o onze regulamentar? Eu nem sequer gosto de futebol, mas a questão serviu apenas como um paralelismo que me pareceu ajustado ao assunto. Acontece que o panorama nacional, no que toca a argumentistas/escritores e desenhistas/ilustradores, sofre de muitos males que não vão lá com um copo de água e um par de aspirinas. Já nem vou desenvolver a particularidade dos chamados “artistas completos” (que escrevem e desenham) porque esses, como já foi dito, são mesmo os escassos oásis que se encontram na imensidão dos desertos. E, mesmo entre estes, se queremos ser justos, também há aqueles que deveriam fazer um exame de consciência e admitirem que só são “artistas completos” por necessidade e não por capacidade. Mas isso já são outros quinhentos. No que concerne concretamente aos problemas dos argumentistas/escritores, infelizmente, os impedimentos que encontram para conseguirem publicar um trabalho não se limitam à falta de desenhistas/ilustradores. Acontece que, na minha perspectiva, parece que há, por parte das editoras, uma qualquer cláusula que implicitamente exige algum tipo de habilitação formal para que um escritor possa apresentar um trabalho francamente bom e com potencialidades comerciais. E, a bem da justiça, os desenhistas também encontram esse mesmo impedimento. Parece que há uma certa obrigatoriedade em possuir uma qualquer parede forrada de diplomas e um extenso currículo (mesmo para quem está a começar a “querer” trabalhar) para que, só assim, alguém que possua lugar numa elevada cadeira executiva do meio editoriar se disponha e dizer: “ora vamos lá ver o que temos aqui.” Às vezes, é de acreditar que quando um qualquer pobre coitado quer mostrar trabalho e pronuncia a palavra “autodidacta”, comete a maior flasfémia possível. Parece que nem sequer é suficiente que as pessoas saibam fazer as coisas, e que é forçoso que se diga onde é que se aprendeu a fazê-las! Por iniciativa prórpria? Não! Isso é intolerável! Pronto, admito que se calhar agora sou eu que estou a abordar isto por uma perspectiva mais pessoal. Mas o facto é que quando o artista já é consagrado, não faltam pessoas a dar palmadinhas nas costas, enquando louvam o seu trabalho e enaltecem o facto de se tratar de um autodidacta. Provavelmente, as mesmas pessoas que teriam recusado o seu trabalho em início de carreira por via da inexistência de referências académicas de qualquer tipo. E a cereja no topo do bolo… vigora a mentalidade de que o que vem de fora é que é bom. Sim, vem muita coisa boa de fora. Mas, em parte, é apenas porque simplesmente vem “muita” coisa de fora. É natural que se aproveite uma soma razoável de trabalho. Parece é dar-se como insignificante e esquecido o facto de que juntamente com essa enxurrada também vem muita coisa com pouca ou nenhuma qualidade. Mas vem de fora, e é o que às vezes apenas parece interessar. E isso sufoca as iniciativas que nascem dentro do pequenito Portugal. Enfim.