Em Portugal devido ao facto dos autores produzirem BD por prazer, ou por ter algo a comunicar, a maioria do material publicado é a chamada “BD de autor”, isto não quer dizer que os autores pretendam alienar o público, simplesmente são as histórias que eles tem para contar. Contudo noutros países em que existem mercados dinâmicos a “BD de autor”, é a minoria do material publicado, mas à semelhança de Portugal existem alguns mercados, como o espanhol e o brasileiro, que apesar de serem mercados “dinâmicos” onde se publicam milhares de títulos por ano, a banda desenhada produzida pelos autores locais também é na sua maioria “BD de autor”. Em Espanha e no Brasil, os autores que pretendem desenvolver material mais comercial estão a trabalhar para o mercado francófono, ou para o mercado norte-americano.
Como até à 2/3 anos não havia autores nacionais a trabalharem para o exterior, ou a produzir trabalhos “comerciais” os leitores costumara interrogar-se se não havia autores nacionais capazes de fazer outro tipo de BD. Supostamente existiam (e existem) autores portugueses que querem produzir material mais “comercial” e “apelativo”, contudo à maioria falta-lhes CAPACIDADE ou VONTADE de trabalhar. É fácil acusar as editoras de não terem interesse em publicar autores nacionais, só o verdadeiro o problema é que a maioria (dos autores “comerciais”) querem ser pagos á prancha (o que em Portugal é impossível, a menos que a editora queira ter prejuízo), ou então são autores que falam muito, mas fazem pouco. Obviamente também existem aqueles “autores” que não tem a mínima qualidade, e se julgam o máximo!
Ninguém impede os autores nacionais de produzirem BD “comercial”, e esporadicamente surgem em Portugal alguns projectos mais “comerciais”, como “BRK” ou “C.A.O.S”, mas estes projectos, não são exactamente uma novidade, nem representam uma mudança de atitude do autores, por enquanto. Já existiram outros projectos “comerciais” de autores portugueses noutros tempos. A única diferença entre estes projectos e os anteriores é que devido à existência da internet hoje é possível que o publico saiba da sua existência, apesar de terem uma tiragem reduzida, ou uma má distribuição.
Como em Portugal costumamos ter a memória curta, acabamos por nos esquecer de outros projectos semelhantes que existiram anteriormente, ou então preferimos ignorar que existiram, os motivos porque falharam e os autores desapareceram.
Em 1994 foi publicada uma revista chamada “Arte Nove” que só publicava autores nacionais, e cujo conteúdo eram histórias de aventura e acção, por problemas vários a revista só durou 5 números, mais tarde o editor e autor Miguel Jorge editou outra revista intitulada “Crash!!!”, que só durou 2 números. Apesar do seu cariz comercial e de PAGAR à prancha, a “Arte Nove” tinha quase a mesma dificuldade em encontrar colaboradores, que um fanzine, cujas colaborações não são remuneradas.
Dos autores, publicados na “Arte Nove” e “Crash” o único que continuou a produzir e a publicar banda desenhada foi o Pedro Brito (o mais “alternativo”), as duas histórias que publicou na “Arte Nove” foram republicadas no mini-livro “Franco – O Trolha,” e ganhou o vários prémios pelo álbum “Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela é a Mulher dos Meu Sonhos” (ilustrado por João Fazenda), para além de outras distinções individuais devido a outros trabalhos. Os autores mais “comerciais” desapareceram com a revista.
A “Arte Nove” não surgiu por acaso. Em meados da década de 90 surgiu uma geração de autores (desenhistas/artistas) portugueses influenciados pela banda desenhada norte-americana. Se os autores “alternativos” como José Carlos Fernandes, Miguel Rocha ou João Fazenda entre outros, produziram e publicaram as obras que definiram aquilo que hoje em dia entendemos como sendo a “BD portugueses típica”, foi derivado a muitos factores onde o mais significativo foi a CAPACIDADE de trabalho e qualidade que estes autores possuíam (e possuem). Os autores que existiram, e continuam a existir, com capacidade de produzir outro tipo de obras, opta na sua maioria por se dedicar a outras actividades, ou queixam-se muito e nada fazem mesmo quando surge a oportunidade.
Mais do que uma questão de haver editoras ou leitores, é uma questão de opções pessoais que os autores tomam.
Um bom exemplo para analisar as opções que os autores portugueses podem tomar é o “Vertigens”, um dos melhores fanzines publicados na década de 90, que publicou vários de autores com um traço mais “comercial” e apelativo. Apesar da qualidade que os autores possuíam todos eles tiveram destinos diferentes, devido ás opções de vida que tomaram.
Miguel Montenegro optou por ser autor de BD, mas só a ser pago, para isso dedicou-se a fazer carreia nos EUA. Ao fim de muitos anos e de muito trabalho construiu um currículo significativo. O trabalho que Miguel Montenegro publicou no “Vertigens” não era o melhor, ele nem era o autor mais prometedor daqueles que ambicionavam trabalhar para as editoras americanas, dos autores que tinham esse sonho de “emigrar”, ou pelo menos expressavam essa vontade. Miguel Montenegro era um dos que (aparentemente) tinham menos potencial, e poucos acreditavam que pudesse conseguir ser publicado pela Marvel, uma vez que havia autores “melhores” que tinham tentado (uma única vez) e falhado. Como Miguel Montenegro não desistiu, nem teve problemas em ir aceitando pequenos biscates (fill-ins ou histórias curtas em editoras mais pequenas), e aproveitou as oportunidades que lhe apareceram (e as que procurou), foi capaz de construir uma carreira nos EUA, e hoje está a trabalhar para a Marvel, e já trabalhou para a Image.
Rui Lacas que era o autor mais “alternativo” e seguiu o rumo de todos os autores “alternativos”, foi fazendo BD por gosto, quando havia tempo, construiu um pequeno currículo em Portugal e finalmente resolveu pegar no seu portfólio e leva-lo para Angoulême onde conseguiu um contracto com a editora francesa Paquet. Convém salientar que o seu portfólio não era constituído só por meia dúzia de pin-ups, e projectos de histórias incompletas, mas incluía também 4 álbuns publicados (mais de 200 pranchas de BD sem contar com as histórias produzidas para jornais, revistas e fanzines).
Eliseu Gouveia é um verdadeiro caso à parte, tendo demonstrado capacidade de trabalho e tendo talento, produziu no final da década de 90 um álbum de super-heróis nacionais intitulado “Medusa 31” para a PedraNoCharco e depois desapareceu, reaparecendo alguns anos mais tarde a trabalhar para o mercado norte-americano, pelo meio, consta, que fez alguns trabalhos que por razões que desconheço estão guardados num gaveta.
Jorge Coelho e Rui Gamito, tomaram a opção mais comum aos autores nacionais que produzem BD na adolescência, mas ao terem de optar profissão abandonam qualquer projecto relacionado com a BD, para se dedicam-se à ilustração, animação, publicidade ou outra actividade que garanta um ordenado no fim do mês. Pertencem a um grupo de autores que pura e simplesmente desistem da BD, podendo ocasionalmente fazer algum trabalho se surgir a oportunidade e houver tempo, mas não andam pelos fóruns e eventos bedéfilos a queixarem-se que ninguém os quer publicar. Não se queixam porque sabem que em Portugal fazer BD não é profissão, por isso optaram por um profissão que pague as contas.
Durante uns anos estiveram desaparecidos, mas como acontece, com a maioria dos autores que QUEREM fazer BD (apesar do mundo não prefeito, nem pagos a peso de ouro), Rui Gamito e Jorge Coelho apareceram recentemente com alguns trabalhos novos, existindo outros a serem produzidos. Agora que já tem a sua vida pessoal e profissional estabilizada encontraram maneira de poderem continuar a fazer BD, apesar de todos os problemas e condicionantes que existem em Portugal.
Ninguém pode ser criticado por não querer fazer BD sem ser pago, mas a partir do momento em que se sabe que em Portugal isso não é possível, não vale a pena os autores queixarem-se, caso não queiram desistir de fazer BD, resta-lhe fazer algo para mudar a situação, ou optam por “emigrar”, num sentido metafórico, uma vez que não é preciso ir viver para o EUA ou França para trabalhar para esses mercados.
Durante muitos anos era considerado impossível um autor nacional arranjar trabalho em França ou nos EUA, sendo essa a desculpa preferida dos baldas para justificarem a preguiça: “Eu trabalhava se me pagassem, mas cá ninguém paga e lá fora é impossível!”. Hoje essa desculpa já não pega. Rui Lacas, Miguel Montenegro, Ricardo Tércio e outros já provaram que é possível publicar no exterior.
Por isso os autores que QUEREM fazer BD tem duas opções claras; ficam em Portugal e produzem BD sabendo que dificilmente vão ter algum retorno financeiro, ou então vão para um mercado em que seja possível serem pagos pelo seu trabalho enquanto autores. Se nenhuma destas opções lhes agrada então podem DESISTIR, que ninguém leva a mal, escusam é de andar a queixar-se de que o mundo é cruel e injusto em vez de produzirem, trabalharem e procurarem a sorte. É que os contractos que Miguel Montenegro, Ricardo Venâncio e outros conseguiram não foi obra do acaso. Aconteceram porque trabalharam para isso e, o mais importante de tudo, aproveitaram as oportunidades quando estas surgiram.
Obviamente, que ao fazerem um álbum que os autores que optam por ficar cá não tem garantias de ser publicados, existe sempre a possibilidade de não haver ninguém interessado em publicar o trabalho o seu trabalho, contudo isso não quer dizer que os trabalhos tenham de ficar guardados na gaveta. Existem alternativas, se o autor tiver algum dinheiro pode optar por uma edição em impressão digital; se tiver mais algum capital pode fazer um edição “a sério”; caso não possua dinheiro para nenhuma das anteriores resta sempre a opção do POD (Print On Demand) que não implica nenhum investimento.
Um autor auto-publicar-se pode não ser muito apelativo, mas um que não tenha coragem de o fazer não pode acusar um editora de falta de interesse em autores nacionais, se o próprio autor não está disponível para publicar o seu trabalho, para investir no seu trabalho, ou nem sequer acredita que pode ter retorno financeiro se o publicar, porque razão devia estar uma editora disponível a apostar nesse “autor”?
Sempre houve e vai continuar a haver autores a queixarem-se de falta de público e das editoras, são os autores que não possuem capacidade de trabalho ou qualidade, quando não são as duas em conjunto. Os outros, aqueles que possuem talento e capacidade de trabalho, vão sempre arranjar uma maneira de serem publicados, mesmo que não ganhem fortunas com as suas BDs. São esses autores que tem vindo a fazer a história da BD nacional, e serão eles que continuarão a escrever essa história.