Falta de Tempo Trabalhadores Alternativos!
Jun 14

[nota introdutória, As Crónicas do Submunco começaram a ser publicadas no site BDesenhada, como tem estado parado nos últimos meses, e não sei quando pretende voltar á actividade, vou republicar aqui as duas primeiras crónicas e depois prosseguir com a publicação da inéditas.]

01 - E ASSIM COMEÇAMOS…

É habito e tradição que na primeira crónica ou coluna de opinião o autor justifique o seu nome, geralmente costuma só ocupar um parágrafo, contudo este título merece uma crónica sobre si próprio.

Num país em que se adora usar expressões estrangeiras em detrimento das expressões portuguesas, ser underground é um estatuto que muitos gostam de ostentar, infelizmente 90% da BD em Portugal é underground, mesmo aquela pretende ser mainstream. Por isso deixemo-nos de tretas, quando se fala de BD em Portugal estamos a falar numa actividade que por si só underground, alternativa, e já que prefiro usar expressões em português, sempre que disponíveis o titulo é crónicas do submundo.

Ora, em português submundo possui uma conotação pejorativa, associamos imediatamente ao submundo do crime, a actividades ilícitas onde se utilizam métodos um pouco dúbios. Só que, sinceramente, submundo adqua-se na perfeição á BD em Portugal. Não estou a dizer que somos criminosos, também estou incluído no lote dos elementos que fazem este submundo girar, e eu ainda não fui condenado ou sequer julgado por qualquer crime, aliás tirando um pedófilo, a maioria da malta até tem vidas muito respeitáveis fora da BD.

Em 2003 quando se deu o lançamento quase simultâneo de “Aconteceu” (Vorne/Phermad); “Paris Morreu” (Duarte/Pepedelrey) e “Só Me Saem Dukes” (Estrompa), José Miguel Tavares comentava no Diário de Notícias a predilecção de autores nacionais pelo policial, contudo não compreendeu que o policial é uma bela metáfora para o mundo em que os autores de BD habitam.

Um mundo nada simpático e cruel, e quando penso que estou a ser um pouco extremo na analogia, lembro-me da Tertúlia do Lino, que é um evento respeitável, e onde se encontra muita gente de bem e advogados – por isso convém ter tento na língua! Ora, como dizia, esse evento respeitável realiza-se no decadente Parque Mayer, lugar desolado e mal iluminado, um cenário mais propicio a encontros ilegais do que de gente bem. E quero eu afastar-me desta analogia criminal, quando me lembro d’ “A Maldita Cocaína”, peça de teatro de Filipe La Féria adaptada à BD por Jorge Magalhães e Rui Lacas, uma peça (um pouco) respeitada e um sucesso de público que nos contava a história dos tempos áureos do Parque Mayer. Mas, cujos protagonistas são coristas e tipos pouco recomendáveis, história de faca e alguidar, porque o Parque Mayer era um lugar frequentado por algumas pessoas pouco recomendáveis, e é dessas que nos lembramos pois são aquelas que tem as histórias mais interessantes.

Queria eu afastar-me da analogia criminal quando me lembro do FIBDA, e não é por se ter realizado na Reboleira! É devido ao local onde se encontrava o grosso das exposições – um parque de estacionamento, um cenário priviligiado para emboscadas, assassinatos e transacções ilícitas em que qualquer policial moderno. Para além desse detalhe existe o facto de o FIBDA mais do que uma festa, ser um terreno neutro onde as várias gangues destes submundo se encontram, devido á concordância com um pacto de não agressão, o que permite a experiência sociológica de vermos pessoas que se odeiam mortalmente, sentadas lado a lado.

Quando falo de gangues, falo dos fans que regra geral se dividem em facções que não admitem miscigenação: franco-belga, manga; comics (subdivididos em Marvel/DC e alternativos. Nesta analogia gangues são também as editoras que lutam desalmadamente pelo território que são os leitores. Do mesmo modo que existem as gangues de autores, no plural que existe mais do que uma, ou ainda não repararam como a maioria se desloca em grupos que raramente se misturam e não gosta de miscigenação.

Os confrontos entre gangues rivais costumam ser violentos e sangrentos, contudo estas gangues são mais pacíficas, e exceptuando as cenas de pugilato no Clube Português de Banda Desenhada, os restantes confrontos costumam ficar-se pelos insultos e insinuações vis.

Eu até poderia usar uma analogia mais elogiosa, usando a dupla vida que os elementos do mundo da BD em Portugal levam para os comparar aos super-heróis.

Mário Freitas empresário de dia, autor á noite

Filipe Andrade modelo de dia, artista de noite

Derradé informático de dia, autor de noite.

Álvaro arquitecto de dia, autor de noit.

Ou outros casos mais dignos de nota, como o do especialista mundial em BD que trabalha como contínuo; ou o segurança que é editor. Enfim, como a BD é uma actividade paralela para a maioria, casos como estes não faltam. Só que existem mais situações em que parece que estamos a falar de uma actividade criminal, especialmente quando estamos a falar de autores, editores e projectos que conhecemos pessoalmente ou devido ao trabalho que produzem.

Para começar temos o caso do autor que anda fugido, mas alguém sabe onde se encontra.

- Onde anda o Relvas?

- Tá na Eslovénia.

- O quê anda a fugido da bófia?

- Não lá pagam-lhe mais.

- A fazer o quê?

- A desenhar obviamente. Que mais é que havia de estar a fazer?

Depois há o caso dos autores que desaparecem misteriosamente sem deixar rasto.

- O que aconteceu ao Brum, o gajo tinha um traço muita porreiro.

- Desapareceu, nunca mais o vi

- Será que lhe fizeram a folha e o corpo dele está enterrado em qualquer lado, sem ninguém saber.

- Acho que não, é mais provável que arranjado um emprego, casado tenha desistido de fazer BD.

Depois temos ainda malta que tem uma recaída.

- Voltas-te a fazer BD! Pensei que tinhas dito que tinhas deixado disso.

- É pá eu tentei, mas foi mas forte do que eu, não consigo sair. Ainda andei uns anos sem fazer uma prancha. Só foi mais forte do que eu.

E depois temos os arrependidos

- Eu se fosse novo, metia-me era na droga.

- Realmente dava mais guita.

- Yah, eu se gajo se viciar vai para uma clínica de reabilitação e a malta compreende, porque a droga é uma coisa tramada. Essas Tretas todas!

Agora dizes-lhes que andas a fazer BD eles olham para ti como se fosses maluco.

- Olha que se disseres que fazes BD, até olham para ti naquela que és artista, coisa e tal, podia ter-lhe dado para pior, até faz umas coisas giras. Pedem-te para fazer uns desenhos do Pato Donald, que é pa putos! Não é assim tão mau, agora se tu és só daqueles gajos que compram… ai é pior.

- Pois é isso é capaz de ser pior

- Pois é. Eu se fosse novo metia-me era na droga

- Pois é…

Depois temos os que saíram da prisão, uma prisão metafórica obviamente! A prisão do emprego, que paga as contas e não deixa tempo para devaneios juvenis de fazer BD sem receber um cêntimo.

Mas enfim. Isto é uma introdução, existem mais casos que podiam ser mencionados para justificar a escolha da analogia, mas creio que já deu para perceberem as razões da sua escolha. Outros casos ficam reservados para o futuro, quando começar a analisar situações mais concretas e não estiver só a falar do geral e passar a falar de aspectos mais especifico.

Por hoje é só.

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