A cultura Japonesa no Expresso 3º Concurso de BD de Viseu
Mar 12

Eu não me lembro de qual foi a última exposição de autores contemporâneos que houve na Bedeteca, mas a notícia da exposição de BD Checa está em todo o lado.

Para quem ainda não sabe tem até dia 15 de Abril para visitar o evento.

“A banda desenhada da outra Europa” é o que se poderá chamar a este caso de resistência invulgar no panorama global da história da bd. De facto, encontramos géneses idênticas em países da Europa de Leste como a Hungria, Jugoslávia e República Checa e em tantos outros países ocidentais (começando com a caricatura política e avançando para a bd de crítica social e política nos periódicos dos finais do século XIX). Mas a sua evolução foi quase sempre sabotada pelas grandes guerras ou por regimes totalitários, «sendo com frequência marginalizada e considerada uma forma de arte inferior, quando não mesmo encarada como algo meramente kitsch - juntamente com o anãozinho ornamental de jardim.»

Foi a partir da Queda do Muro, no final da década de 80, que o Ocidente começou a ouvir falar da bd dos países de Leste. Em parte, graças ao esforço editorial do colectivo esloveno Stripcore materializado na revista “Stripburger” (ainda hoje activa) e as duas antologias “Stripburek,” que mostravam o que se passava por detrás da ex-Cortina de Ferro. E foi graças a esse trabalho que, em 2003, no Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, tivemos uma exposição de autores de leste e a visita do esloveno, Igor Prassel (activista da Stripcore), e dos autores sérvios, Aleksandar Zograf e Aleksandar Opačic.

Um trabalho e uma amizade que se renovam agora outra vez: até 15 de Abril, a Bedeteca de Lisboa apresenta uma mostra de 40 quadros que de forma muito elucidativa retratam a história da bd checa, pondo em destaque a sua capacidade de sobrevivência às convulsões do século XX, à pressão crítica e à censura.

Diz Petr Štěpán, o comissário da exposição, que a bd conseguiu sobreviver graças ao «fenómeno tipicamente checo – o humor. O humor checo evoluíra no sentido de uma independência crítica em relação à autoridade e ao poder dominante do momento, uma tradição que remonta aos tempos da dominação austro-húngara, que é onde se devem procurar as origens da BD checa.»

Embora não se incluam originais, esta mostra resultante de uma parceria com a Embaixada da República Checa, não deixa de constituir uma oportunidade rara, pelo menos em terras lusas, de conhecer a bd checa. Na diversidade dos autores representados cabe um “clássico”, como Kája Saudek, que decidiu revelar o verdadeiro poder das “frases ocas de kitsch sem alma” nos anos 60, época de relativa liberdade para a cultura checa – os seus trabalhos lembram a bd francesa adulta dessa mesma década dada à estética “Pop Art” e “Erótica” –; mas também as gerações mais novas como a dupla Jaroslav Rudiš e Jaromír 99, com o livro “Bíly Potok” (“Primavera Branca”), que se desenrola ao longo de vários períodos de tempo, e dá conta de estórias desconcertantes que têm como cenário a fronteira checa e alemã.

A mostra é enriquecida ainda com a exibição do filme “Kdo chce zabít Jessii?” (Who Wants To Kill Jessie? / Quem Quer Matar Jessie?; 1966) de Václav Vorlícek, em “loop” na sala de exposições.

Entrada livre.

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