(O estado da BD em Portugal)
De regresso após ter descansado no fim de semana. Capítulos anteriores arquivados em Evoluir ou Morrer.
06: As editoras, o elo mais fraco.
O elo mais fraco do mercado são as editoras, são elas que se encontram perante o dilema de se adaptarem, mudarem, evoluírem ou morrerem.
Os leitores continuarão a encontrar BD, nem que seja em inglês, francês ou português do Brasil. Os autores vão continuar a produzir quando tiverem vontade e a publicar onde puderem. As lojas da especialidade vão continuar a importar e a vender. As editoras ou se adaptam ou morrem.
É neste ponto que se pode fazer um comparação com mercados mais dinâmicos. Em França, em Espanha, nos Estados Unidos e noutros mercados, também houve crises, também há problemas, contudo lá fora as editoras souberam evoluir e adaptar-se aos novos tempos, não foram todas, houve aquelas que também desapareceram, mas existem grandes e pequenas editoras, com 15 ou mais anos de existência a editar BD, devido á sua capacidade de adaptação. A única editora em Portugal que edita actualmente, e que possui um historial na edição da BD é a Asa, mas durante uns 5 anos ou mais ela limitou-se a editar uns álbuns de Luis Louro, e pouco mais, só em 2002 voltou a ter uma secção de BD, além disso a sua principal fonte de rendimento não é a BD, porque essa se calhar até dá prejuízo. As restantes editoras nacionais estão no negócio há uma década ou menos, e se querem continuar a editar por mais umas décadas, terão de encontrar soluções para cativar novos públicos, abdicar de hábitos perniciosos.
O principal vício das editoras é a irregularidade. Com excepção da Asa que continua num frenesim editorial quase ilógico, a prática comum das editoras nacionais é muito simples e também ela ilógica. Uma editora está 2, 3 ou 4 meses sem publicar um álbum depois, edita uma fornada de títulos (por vezes a fornada são só 2 titulo mas enfim…). Este facto causa um efeito pernicioso no mercado. Os leitores perdem o hábito de irem ás livrarias à procura de novidades, e aqueles que vão com regularidade são os clientes das lojas especializadas ou das FNACs, porque esses clientes sabem que vão encontrar novidades, embora sejam importadas.
Comprar BD é um hábito, até lhe podemos chamar vício, do mesmo modo que são os livros, a música, os filmes. Quem gosta de cinema, vê cinema com regularidade, mesmo quem não vai ao cinema, aluga/compra DVDs ou vê os filmes na TV. Em qualquer das áreas que mencionei, existem novidades todos os meses, quando não é todas as semanas, o cliente tem sempre algo novo, existe um hábito de compra.
A politica das editoras tem 10 anos, e tem como base uma realidade que não existe actualmente. Há 10 anos quando a única editora era a Meribérica, as pequenas editoras, editavam uns álbuns no inicio do ano, e o resto por altura do FIBDA. Há 10 anos isso fazia sentido. Só que há 10 anos no FIBDA não surgiam 15 novos álbuns duma acentada. Obviamente que um leitor que não comprou 1 álbum editado em Portugal em 3 meses (porque não houve nenhuma edição) não vai dispor de dinheiro para comprar 15 num mês. O leitor habitual de BD irá comprar um, talvez dois, mas dificilmente irá comprar mais, uma vez que continuará a comprar as edições estrangeiras que consome regularmente. O comprador ocasional, esse, é mesmo um comprador ocasional e cada vez mais escasso.
Em 1997 ou 2000 a politica de editar um mínimo de 2 álbuns de cada vez fazia sentido, porque a editora podia anunciar que tinha editado dois novos álbuns, só que hoje esse efeito perdeu-se as editoras fazem os lançamentos, quase em simultâneo, que dilui o impacto das novidades.
O outro vicio pernicioso das editoras é o autismo. A incapacidade de diálogo, não só com as lojas especializadas, mas também com os leitores, e a sua incapacidade de promoverem os seu produtos.
Campanhas publicitárias são caras, campanhas de markting são caras, mas um site, um boletim informativo para informar os leitores de novidades é barato e custa pouco a fazer, obviamente que ambos só fazem sentido se houver regularidade. Isso implica que a editora publique pelo menos 1 álbum bimestralmente, uma periodicidade que até não é muito dificil de manter, basta publicar 6 álbuns por ano.
Existindo um publicação regular, partindo desta base de 1 álbum por mês será muito mais prático de anunciar, de publicitar do que publicando 3 álbuns de 4 em 4 meses. Isso implica vender cada álbum individualmente, escrever um press release para cada álbum, enviar amostras da arte para os poucos sites ou blogs sobre BD, e evidentemente colocar essas amostras on-line no site da editora. AH! Tinha-me esquecido de que as editoras nacionais não tem sites, tirando a excepção que confirma a regra, e mesmo esses não são actualizados.
Na altura de nos queixar-mos das coisas más gostamos muito de fazer comparações com mercados estrangeiros, mas esquecemos de nos compararmos na altura que menos nos convém. Em qualquer mercado dinâmico até um autor que se auto-publica tem um site, através do qual promove e vende directamente os seus produtos, ou então tem parcerias com lojas especializadas em BD para que o leitor que tiver interesse em adquirir os seus produtos o possa fazer facilmente.
Mas isto é só a minha opinião. Obviamente que uma editora gastar tempo a enviar um mail a eventuais clientes é perda de tempo. Obviamente que uma editora ter um site onde vá informando os leitores das suas novidades são modernices!
Will Eisner disse numa entrevista “quando não existe um mercado, precisamos de o criar”. Nos mercados dinâmicos a que gostamos de nos comparar, para justificar a perda de leitores e as vendas inócuas, as editoras tentam preservar e expandir esse mercado. Para além de venderem como costumavam vender no século passado, exploram novos meios de divulgação, de promoção e venda dos seus produtos. Evoluem, adaptam-se aos novos tempos e circunstancias, não se limitando a publicar, e depois esperar que as distribuidoras e as lojas façam o resto do trabalho por elas. Essa é a principal razão porque em Portugal o mercado da BD nos últimos 20 anos tem sido feitos de altos e baixos, em que as editoras surgem e desaparecem sem deixar rasto, surgindo colossos com pés de barro, que são substituídos por outros com alicerces igualmente fracos ou ainda mais débeis.
Evoluir ou morrer, não é uma questão que se coloca á identidade mítica que é o mercado da BD em Portugal. Há mais de um século que existe BD neste país e continuará a existir. Evoluir ou morrer é uma questão que se coloca ás editoras que podem optar por continuar a seguir politicas editoriais do século passado e virarem mais uma nota de rodapé da história, juntamente com as dezenas de editoras que já faliram, ou então evoluem e adaptam-se para se tornarem negócios viáveis a médio e longo prazo.
A seguir: Breves conclusões<7b>