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EVOLUIR OU MORRER [capítulo 02]
Hector 100 deEScONTOS O Melhor do Pior
Jan 17

(O estado da BD em Portugal)

Capitulo anteriore arquivados em: evoluir ou morrer.

Capítulo 02: O Mercado: como ele (re)surgiu

Falar de “mercado” de BD em Portugal, não é exactamente o mesmo que falar do “mercado” de BD em Espanha, França, Brasil, EUA e outros países. Há vários anos que a BD em Portugal, a “industria” da BD em Portugal é maioritariamente amadora, e feita de fogachos, de pequenas tentativas de publicar BD, geralmente feita por uns carolas que gostam de BD. Convém salientar que as editoras actualmente em activididade (Polvo, Devir, VitaminaBD) estavam a dar os primeiros passos há 10 anos atrás ou nem sequer existiam. A Asa na altura tinha parado de publicar BD por completo. Só retomando a publicação de BD em 2003. O colosso da BD nacional na altura era a Meribérica que entretanto faliu. Nos últimos 10 anos ainda foram surgindo e desaparecendo mais uma série de editoras. Na maioria dos casos são editoras a funcionar em regime de part-time. O facto de actualmente existirem mais editoras do que há uma década não significa que o mercado da BD tenha evoluído, em alguns casos até podemos dizer que regrediu. Hoje, do mesmo modo que em 1997, nenhuma editora se dá ao luxo de viver da BD que edita, aliás actualmente se tiverem lucro com o que editam até ficam contentes. Editores, tradutores e todos aqueles que de algum modo estão envolvidos na produção e edição da BD em Portugal, só trabalham na BD em part-time, geralmente tem outro trabalho ou editam outro tipo de produtos que dão lucro.

Actualmente a situação em termos de quantidade e diversidade do material publicado, é melhor do que há 10 anos, permite até falar de um mercado, mas esse mercado é muito débil, em muitos casos é uma criança que ainda não sabe muito bem o que faz.

Comparações e evoluções
Uma década é muito tempo, e para mercados dinâmicos existem muitas alterações; convulsões, problemas que surgem, modas que aparecem e desaparecem; uma série de factores que condicionam a sua evolução. Mas em mercados dinâmicos, épocas em que se vende menos são compensadas por outras em que se vende mais, e como nestes mercados dinâmicos existem pessoas cujo ordenado provem da existência desse mesmo mercado, existe sempre um maior dinamismo em épocas de crise, uma vontade/necessidade de dar a volta a situações melindrosas, e a tentar evitar erros passados. Do mesmo modo que existe uma vontade e tentativa de captar novos públicos e de manter aquele que existe.

Por mercado dinâmico estou a falar de países como Brasil, EUA, Japão, Espanha, e outros mais. Mercados em que existem editoras com várias décadas de existência, que sobreviveram a crises e modas, viveram épocas de grandes sucesso e outras de grandes falhanços, obviamente não existe a mínima comparação com Portugal em que há uma década o mercado era basicamente uma editora – a Meribérica.

Os actuais intervenientes no mercado nacional não tinham surgido, ou estavam a dar os primeiros passos há 10 anos. Os que não desapareceram neste período encontram-se agora perante a sua primeira crise. Só esse factor por si próprio seria suficiente para não se fazer comparações com outros mercados, contudo existe um factor mais importante – NÃO EXISTEM NÚMEROS. Quero com isto dizer que não sabemos quanto vendem os álbuns publicados, na melhor das hipóteses sabemos a tiragem, ou podemos ter uma ideia aproximada da tiragem, contudo aquilo que realmente interessa – as vendas, essas não sabemos.

Ora os dados relativamente ao mercado francês ou norte-americano analisa três factores: vendas, tiragens e número de títulos publicados. Em Portugal único factor possível de contabilizar é o número de títulos publicados, o que por si só não permite saber qual é o estado de saúde do mercado. Apesar de poder haver alguns (poucos) pontos de contacto com outras realidades, na maioria dos casos as comparações com outros mercados são uma mera diversão para justificar falhanços próprios.

A única verdade sobre as vendas de BD em Portugal actualmente é que se vende menos do que vendiam há uns 4 anos atrás. Mas a justificação para isso é muito simples, em 2002 começou a publicar-se um número de álbuns quase absurdo. Aumentou a oferta sem ter aumentado a procura, resultado, publica-se mais, mas cada álbum vende menos.

Nada de mais, nada de novo! Basta ter em consideração que este facto era do conhecimento das editoras, deixem-me só relembrar umas declarações proferidas por José de Freitas por altura do FIBDA de 2003: “as vendas estão em queda livre, as tiragens cada vez mais pequenas, e os livros cada vez menos tempo em exposição (e portanto a vender ainda menos, numa espiral descendente)”.

Para depois constatar, aquele feitio bem português, em que mais vale quebrar do que torcer: “finalmente há editoras a apostar numa oferta crescente para conquistar espaço e “fatia de mercado” mesmo perdendo dinheiro. Porque ninguém quer ser o primeiro a diminuir a sua produção. Isso implicaria perda de espaço e visibilidade comparado com a concorrência, o que ninguém quer”.

Obviamente que existem outros factores para a “crise” do mercado nacional, mas convém salientar que o aumento de produção sem haver um real aumento de consumidores, foi algo que ainda hoje prejudica as editoras. A consequência mais visível foi a falência da Witloof; o desaparecimento da Booktree e prejuízos para as restantes editoras, as quais tem dificuldades em vender 1,500 exemplares de um álbum, existindo alguns casos em que as vendas não chegam sequer aos 500 exemplares.

O problema da venda de BD em Portugal começa precisamente em 2002/2003 com o aumento desenfreado de edições. Um factor muito português que impede que se faça comparações com outros mercados. É nessa altura que os álbuns começam a dar prejuízo, e as perspectivas de ter lucro publicando BD começam a ficar mais diminutas.

O mercado nacional, um mercado plural com diversas editoras só voltou a existir há poucos anos, depois de um longo período de hegemonia da Meribérica. Por isso hoje as editoras - “crianças” com menos de 10 anos - enfrentam a sua primeira crise.

Agora o mercado da BD nacional encontra-se num ponto em que se adapta, evolui ou morre, voltando 10 anos atrás para uma situação em que só existe uma editora e umas tentativas esporádicas por parte outras. Ou muda.

Este 8 ou 80 tipicamente português dificilmente acontecerá, porque a BD continua a vender e continuará a vender. Hoje em dia é mais fácil e económico publicar do que em 1997, devido á evolução tecnológica das gráficas. Contudo uma politica canibalista e autofágica por parte das editoras, pode conduzir uma situação em que não existe captação de novos leitores, e ainda se perde os actuais. O que tornará mais difícil a sua sobrevivência a médio e longo prazo.

A seguir: O demónio da distribuição e o desaparecimento dos quiosques.

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